Forró pé de serra

Sanfona, zabumba e triângulo: a origem do trio que é a alma do pé de serra

Três instrumentos, três continentes, uma só música. A história de como sanfona, zabumba e triângulo se encontraram no Nordeste — e como Luiz Gonzaga transformou esse encontro em formato consagrado.

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O som mais reconhecível do forró pé de serra não é uma melodia específica — é uma combinação de timbres: o fole que respira, o couro do zabumba que marca o tempo, o metal do triângulo que corta por cima de tudo. Essa combinação, hoje tão natural que parece ter sempre existido, é na verdade o encontro de três histórias de origens completamente diferentes.

A sanfona (o acordeão) é uma invenção europeia do século XIX — os primeiros protótipos surgiram na Alemanha, por volta de 1822, e a patente mais conhecida do instrumento é do austríaco Cyrillus Demian, em Viena, em 1829. O instrumento chegou ao Brasil com imigrantes alemães, por volta de 1846. No Nordeste, ganhou o apelido popular de “sanfona” — nome emprestado de um instrumento de cordas anterior — e há relatos de que soldados nordestinos que lutaram na Guerra do Paraguai (1864-1870) tiveram contato direto com o acordeão e ajudaram a espalhá-lo pela região ao voltar para casa.

O zabumba tem raiz bem diferente: vem da tradição de tambores de origem africana, trazida pelos povos escravizados e recriada em solo brasileiro. Já o triângulo é de origem europeia, um instrumento de percussão simples que se popularizou em diversas tradições musicais do continente antes de chegar ao Brasil.

Um instrumento europeu, um tambor de raiz africana e um triângulo europeu: o trio do forró pé de serra é, literalmente, um encontro de três continentes.

Sobre a formação do trio como conjunto — sanfona, zabumba e triângulo tocando juntos —, é preciso ser honesto sobre o limite da pesquisa disponível: não encontramos uma tese ou artigo acadêmico revisado por pares dedicado exclusivamente a reconstituir, ano a ano, como e quando esses três instrumentos passaram a tocar juntos nas festas de chão batido do interior nordestino. O que se sabe com razoável confiança é que esse formato já existia informalmente nas festas populares do sertão desde o fim do século XIX.

Luiz Gonzaga e a consolidação do formato

O que está bem documentado é o papel de Luiz Gonzaga na consolidação e formalização desse trio como apresentação urbana — foi ele quem, a partir do início dos anos 1940 no Rio de Janeiro, levou essa formação para os palcos, o rádio e os discos, transformando uma prática das festas juninas do interior num formato reconhecível em todo o país. Antes de Gonzaga, o trio sanfona-zabumba-triângulo era parte da vida cultural do sertão; depois dele, tornou-se um símbolo nacional do Nordeste.

Hoje, quase um século depois, o forró como conjunto de expressões culturais — batizado pelo IPHAN de “Matrizes Tradicionais do Forró” — é Patrimônio Cultural do Brasil desde dezembro de 2021, e o país protocolou, em 2026, a candidatura do forró tradicional a Patrimônio Imaterial da Humanidade junto à UNESCO. O trio que nasceu do encontro entre Europa e África, formalizado por um sanfoneiro de Exu, está a caminho de se tornar patrimônio de todo o mundo.

Fontes

  1. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). “Matrizes Tradicionais do Forró” — registro como Patrimônio Cultural do Brasil, dezembro de 2021. Disponível em: bcr.iphan.gov.br.
  2. Agência Gov. “Iphan assina protocolo de intenções para candidatura do forró a Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.” 2026. Disponível em: agenciagov.ebc.com.br.
  3. “A história e o contexto musical da sanfona no Nordeste do Brasil.” Repositório Institucional da Universidade Federal de Sergipe (UFS).