De onde vem a palavra “forró”? A pesquisa que derruba o mito do “for all”
A história mais contada sobre a origem do forró — a de que a palavra vem do inglês “for all” — não tem lastro documental nenhum, segundo pesquisa recente da UFRN. A origem real é bem mais brasileira.
Quase todo mundo já ouviu essa história: “forró” viria do inglês for all (“para todos”), suposta placa em festas abertas ao público em geral, ou organizadas por ingleses da estrada de ferro em Pernambuco, ou por soldados americanos durante a Segunda Guerra. É uma história charmosa — e, segundo pesquisa acadêmica recente, sem nenhuma base documental real.
Um artigo publicado em 2024 na Revista Espacialidades, do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), reconstituiu a origem dessa lenda e mostrou que não existe nenhum documento da época que sustente a conexão com o inglês. Mais do que isso: o termo que deu origem ao “forró” — forrobodó, que significa festa popular animada — já circulava no Brasil desde o período colonial, muito antes de qualquer presença relevante de ingleses ou americanos na região Nordeste.
O registro mais antigo da palavra “forrobodó” na imprensa é de 1833. “Forró”, como palavra dicionarizada, só aparece em 1913 — décadas antes de qualquer conexão possível com “for all”.
A origem mais aceita pela pesquisa linguística séria remonta ao folclorista Luís da Câmara Cascudo, autor do clássico Dicionário do Folclore Brasileiro. Cascudo defende que “forró” é uma redução de “forrobodó” — termo que já aparecia na imprensa pernambucana do século XIX nas variações “forrobodó”, “forrobodança” e “forrobodão”, sempre no sentido de festa, bagunça animada, reunião popular. Cascudo aponta uma possível origem banta para a palavra — ou seja, vinda de línguas do grupo Níger-Congo, trazidas ao Brasil por povos africanos escravizados, o que reposiciona a história do forró numa raiz afro-brasileira, e não anglófona.
Por que o mito do “for all” pegou tanto
O artigo da UFRN argumenta que a etimologia falsa não é apenas um erro inocente de “telefone sem fio” histórico: ela ajuda a construir uma certa imagem do Nordeste e do nordestino no imaginário nacional — uma história que soa mais “exótica” e ligada a estrangeiros, em vez de reconhecer a raiz popular e afro-brasileira do termo. É um bom lembrete de que até a etimologia de uma palavra carrega escolhas sobre que história se conta — e sobre quem é lembrado como origem de uma cultura.
Da próxima vez que alguém repetir a história do “for all” na beira da pista, vale contar a versão real: o forró não nasceu de uma placa em inglês. Nasceu do forrobodó — a festa, a bagunça boa, a reunião de gente — que já pulsava no Brasil bem antes de qualquer sotaque estrangeiro chegar ao sertão.
Fontes
- Abilio GC, Silva EM. “A Falsa Origem do Forró: Pseudoetimologia e a construção do nordestino no imaginário histórico.” Revista Espacialidades, v. 20, n. 1, 2024 (UFRN). Disponível em: periodicos.ufrn.br/espacialidades.
- Cascudo LC. Dicionário do Folclore Brasileiro. Verbete “forrobodó”.
- Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. “Forrobodó, farrobodó e farrabado.” Disponível em: ciberduvidas.iscte-iul.pt.