Forró pé de serra

Fole, saudade e cidade grande: forró e migração nordestina em São Paulo

Uma tese de doutorado da USP reconstitui a experiência de nordestinos que fizeram do forró pé de serra um espaço de pertencimento em São Paulo. É a mesma função que o forró cumpre na cidade até hoje.

Agenda do Forró SP2 min de leitura

A partir dos anos 1950, milhões de nordestinos deixaram suas cidades de origem em direção ao Sudeste, empurrados pela seca e atraídos pela industrialização em São Paulo e no Rio de Janeiro. Levaram roupa, levaram histórias — e levaram o forró. Nas décadas seguintes, ele deixou de ser apenas a música de uma festa junina no sertão e passou a cumprir uma função nova: a de espaço de memória afetiva e pertencimento para quem estava longe de casa.

Uma tese de doutorado defendida na USP em 2022, de autoria de Diego Corrêa de Araújo, dedicou-se exatamente a reconstituir essa experiência a partir de história oral — entrevistas com três redes de colaboradores: músicos, “musicistas” (frequentadores voltados à dança) e produtores culturais ligados ao forró pé de serra na cidade de São Paulo. O trabalho discute como questões de gênero, geração, classe social e preconceito atravessaram a experiência de ser nordestino dançando forró numa metrópole do Sudeste — e também como se formou, dentro da própria cena paulistana, uma distinção entre o forró “pé de serra” (mais tradicional) e o “universitário” (associado a um público e um circuito diferentes).

Para migrantes nordestinos em São Paulo, o baile de forró funcionava — e ainda funciona — como um lugar onde a saudade da terra natal encontra companhia.

Um artigo publicado em 2022 pela revista Em Tempo de Histórias, do programa de pós-graduação em História da Universidade de Brasília, percorre esse mesmo caminho histórico em maior escala: da origem das festas de forró nas celebrações juninas do Nordeste (Santo Antônio, São João, São Pedro) até sua difusão nacional a partir dos anos 1960-1980, impulsionada por Luiz Gonzaga e por outros artistas, e moldada pela indústria fonográfica e pela mídia de cada época.

Uma função que continua viva

Setenta anos depois do início da grande migração nordestina para São Paulo, o forró continua cumprindo, na cidade, uma função parecida — só que ampliada. Hoje, quem chega a um baile em São Paulo não é apenas o migrante nordestino em busca da terra natal: é também quem nunca pisou no Nordeste, mas encontrou no forró uma comunidade, um lugar de acolhimento e, muitas vezes, os primeiros amigos numa cidade grande e anônima. Redes como o Agenda do Forró SP, que hoje reúne milhares de forrozeiros organizando encontros e trocando informação sobre bailes, são a continuação direta — só que em formato digital — daquilo que a pesquisa da USP documentou: o forró como espaço de pertencimento numa metrópole.

Fontes

  1. Araújo DC. A experiência nordestina no contexto paulistano: o pé-de-serra. Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo (USP), defendida em 31/08/2022. Disponível em: teses.usp.br.
  2. Silva CC. “Aspectos Históricos das Festas e Festividades de Forró no Brasil.” Em Tempo de Histórias, Brasília, n. 40, p. 181-194, jan./jun. 2022 (UnB). Disponível em: periodicos.unb.br.