Forró pé de serra

Pé de serra x universitário x eletrônico: a fronteira que a pesquisa questiona

A discussão sobre “forró de verdade” é antiga entre forrozeiros. Uma pesquisa acadêmica feita em Recife sugere que essa divisão em dois lados é mais simples do que a realidade musical.

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É quase um rito de passagem entre forrozeiros: em algum momento, alguém vai defender que só existe um “forró de verdade” — o pé de serra, tocado com sanfona, zabumba e triângulo — e que as outras vertentes (universitário, eletrônico) seriam desvios, versões diluídas ou comerciais demais. É uma discussão sincera, movida por amor à tradição. Mas o que diz a pesquisa acadêmica sobre essa fronteira?

Um dos trabalhos mais relevantes sobre o tema é de Climério de Oliveira Santos, apresentado em 2014 no SIMPOM (Simpósio Brasileiro de Pós-Graduandos em Música), com um título que já entrega a tese central: “Forró desordeiro: para além da bipolarização ’Pé de Serra versus Eletrônico’”. A partir de pesquisa etnográfica de campo centrada em Recife, o autor questiona a dicotomia simplista que domina o discurso público sobre o forró, mostrando que, na prática, músicos e agentes culturais transitam entre múltiplas sonoridades híbridas — misturas que a divisão binária “tradicional vs. eletrônico” simplesmente não consegue descrever.

A pesquisa sugere que a disputa “pé de serra x eletrônico” tem mais a ver com discurso de mercado e autenticidade do que com uma diferença estrutural rígida na música em si.

Segundo o autor, boa parte da força dessa polarização vem menos da música em si e mais de uma disputa simbólica: quem toca, produz ou consome forró frequentemente usa a etiqueta “pé de serra” como marca de autenticidade cultural e legitimidade — um discurso de mercado tanto quanto um discurso musical.

Uma lacuna a admitir

Vale ser transparente sobre o que a pesquisa acadêmica ainda não fez: não encontramos um estudo de musicologia comparativa formal — isto é, uma análise técnica de compasso, harmonia e andamento — que compare, nota por nota, pé de serra, universitário e eletrônico. O que existe de mais sólido, academicamente, é justamente esse trabalho que questiona a própria ideia de que exista uma “diferença estrutural clara e fixa” entre as vertentes.

Isso não invalida a experiência de quem sente, na pista, que um trio tocando sanfona ao vivo é uma coisa e uma aparelhagem eletrônica é outra completamente diferente — essa percepção é real e legítima. Mas a pesquisa sugere um caminho mais honesto do que “um lado certo e um lado errado”: reconhecer que o forró sempre foi, historicamente, uma tradição que se recria e se hibridiza — como aconteceu quando o próprio Luiz Gonzaga levou o trio do sertão para os estúdios do Rio de Janeiro, décadas atrás.

Fontes

  1. Santos CO. “Forró desordeiro: para além da bipolarização ’Pé de Serra versus Eletrônico’.” Anais do SIMPOM (Simpósio Brasileiro de Pós-Graduandos em Música), 2014.