Dança de forró

Dançar forró faz bem para o cérebro? O que mostra a ciência

Estudos com idosos mostram que dançar em par — como no forró — está associado a menos risco de demência e a mudanças reais no cérebro. Entenda o que já foi comprovado.

Agenda do Forró SP3 min de leitura

Quem dança forró sabe: no fim de um baile, a cabeça também cansa. Prestar atenção no parceiro, antecipar o giro, lembrar a sequência de passos, ouvir a música e reagir a ela ao mesmo tempo — tudo isso acontece junto, em frações de segundo. O que a ciência vem mostrando nas últimas duas décadas é que esse esforço mental tem um efeito que vai além do baile: ele parece proteger o cérebro ao longo da vida.

O estudo mais citado sobre o tema é de 2003, publicado no New England Journal of Medicine, uma das revistas médicas mais respeitadas do mundo. Pesquisadores acompanharam 469 pessoas com mais de 75 anos por, em média, cinco anos, comparando diferentes atividades de lazer — leitura, jogos, tocar instrumento, caminhada, natação, ciclismo e dança. Resultado: entre todas as atividades físicas testadas, só a dança apareceu associada a uma redução significativa no risco de demência — pessoas que dançavam com frequência tiveram 76% menos risco, comparadas a quem raramente dançava.

Entre as atividades físicas estudadas, só a dança apareceu ligada à proteção contra demência — não a caminhada, não a natação, não o ciclismo.

Por que a dança se destacaria assim? Uma resposta veio em 2018, num estudo publicado na revista PLoS ONE. Pesquisadores alemães dividiram um grupo de idosos (63 a 80 anos) em dois: um fez seis meses de aulas de dança com coreografias sempre novas, e o outro fez exercício físico repetitivo, de intensidade equivalente. Os dois grupos melhoraram igualmente o condicionamento físico. Mas só o grupo que dançou teve aumento de uma proteína chamada BDNF — um fator de crescimento que estimula a formação de novas conexões neurais — e ganho de volume em várias áreas do cérebro ligadas a memória, equilíbrio e coordenação.

A explicação mais aceita é que dançar em par, como no forró, exige constantemente aprender algo novo: uma variação de passo, uma resposta diferente do parceiro, uma música com andamento distinto. Esse é exatamente o tipo de desafio que a ciência do cérebro considera mais eficaz para estimular a chamada neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de se reorganizar e criar novas conexões, inclusive na vida adulta e na terceira idade.

O que ainda não sabemos

É importante ser honesto sobre os limites dessa ciência: os estudos citados acima foram feitos com dança de salão em geral (tango, coreografias variadas), não com forró especificamente — não existe, até hoje, uma pesquisa que isole o forró para medir esse efeito no cérebro. Mas a lógica estrutural se aplica: o forró tem justamente os ingredientes que os pesquisadores apontam como responsáveis pelo benefício — dançar em par, seguir ou conduzir em tempo real, e se adaptar a variações de ritmo entre baião, xote e arrasta-pé.

De qualquer forma, o achado é um bom motivo a mais para chamar aquele amigo para o próximo baile: além da alegria de dançar, o cérebro agradece.

Fontes

  1. Verghese J, Lipton RB, Katz MJ, et al. “Leisure Activities and the Risk of Dementia in the Elderly.” New England Journal of Medicine, 348:2508-2516, 2003. DOI: 10.1056/NEJMoa022252.
  2. Rehfeld K, Lüders A, Hökelmann A, et al. “Dance training is superior to repetitive physical exercise in inducing brain plasticity in the elderly.” PLoS ONE, 13(7):e0196636, 2018. DOI: 10.1371/journal.pone.0196636.
  3. Predovan D, Julien A, Esmail A, Bherer L. “Effects of Dancing on Cognition in Healthy Older Adults: a Systematic Review.” Journal of Cognitive Enhancement, 3(2):161-167, 2018. DOI: 10.1007/s41465-018-0103-2.