Dança de forró

Forró move o coração: o que a ciência mede quando o pé bate no chão

Um estudo brasileiro monitorou a frequência cardíaca de mulheres durante uma aula de forró. O resultado confirma o que todo forrozeiro sente: xote é uma coisa, baião é outra.

Agenda do Forró SP3 min de leitura

Todo mundo que já dançou uma noite inteira de forró sabe a diferença: um xote mais arrastado dá para conversar dançando, mas um baião animado tira o fôlego. Essa diferença, que parece só uma questão de sensação, foi medida cientificamente — e por pesquisadores brasileiros.

Um estudo publicado em 2021 na Revista Andaluza de Medicina del Deporte monitorou 17 mulheres saudáveis, entre 18 e 24 anos, durante uma sessão de 40 minutos de dança de salão no estilo forró, com nove músicas alternando xote e baião. Os pesquisadores mediram a frequência cardíaca e a percepção de esforço de cada participante ao longo da aula.

O xote produziu intensidade moderada de esforço; o baião, intensidade vigorosa — uma diferença mensurável, não só sentida.

O resultado confirmou, com números, a intuição de quem dança: o xote, de ritmo mais lento, gerou intensidade moderada de esforço cardiovascular; o baião, mais acelerado, levou as participantes a uma intensidade vigorosa, medida pela frequência cardíaca em relação ao máximo individual de cada uma. Ou seja, dentro de uma mesma noite de forró, o corpo passa por diferentes zonas de esforço físico, dependendo do ritmo que está tocando.

Dançar em par também “empresta” esforço

Outro achado interessante vem de um estudo americano de 2014, publicado no International Journal of Exercise Science, sobre gasto energético em dança de salão recreativa. Além de confirmar que a dança de par atinge, em média, uma intensidade equivalente a caminhar rápido ou pedalar em ritmo moderado (entre 5 e 7 METs, a unidade usada para medir intensidade de exercício), o estudo encontrou algo curioso: o gasto energético de quem “segue” na dança está estatisticamente relacionado ao gasto de quem “conduz”. Em outras palavras, o parceiro que conduz também influencia, fisicamente, o quanto o outro se exercita — a dança em par não é só coordenação, é esforço físico compartilhado.

Somando esses achados a revisões mais amplas sobre dança latina e saúde cardiovascular, a conclusão é consistente: dançar forró regularmente atinge, sim, o patamar de intensidade que entidades de saúde recomendam para benefícios cardiorrespiratórios — sem que pareça “malhação”, porque a atenção está na música e no parceiro, não no relógio.

Vale uma ressalva sobre números que circulam por aí: algumas fontes citam reduções de até 30-50% na mortalidade cardíaca associadas à dança latina, mas esse número aparece citado de segunda mão em revisões — sem uma fonte primária claramente rastreável. Preferimos não repetir esse dado até confirmar a pesquisa original por trás dele.

Fontes

  1. Linder JA, Mattes VV, Queiroga MR, Manoel FA, Silva DF. “Caracterização das intensidades de esforço e relação da recuperação da frequência cardíaca e aptidão cardiorrespiratória com as respostas fisiológicas e perceptuais a uma sessão de dança de salão no estilo forró.” Revista Andaluza de Medicina del Deporte, 14(4):221-227, 2021. ISSN 1888-7546.
  2. Lankford DE, Bennion TW, King J, Hessing N, Lee L, Heil DP. “The Energy Expenditure of Recreational Ballroom Dance.” International Journal of Exercise Science, 7(3):228-235, 2014. PMID: 31156758.
  3. Liu X, Soh KG, Omar Dev RD. “Effect of Latin dance on physical and mental health: a systematic review.” BMC Public Health, 23:1332, 2023. DOI: 10.1186/s12889-023-16221-6.